14 junho 2011

arde



O fim das tardes não era desejado apenas porque traria o início das noites que terminariam nas manhãs que nasciam e não lhes davam o fruto: conversas e viagens onde não conseguiam sair deles.

As travessias, encarregavam-se de os fascinar com os seus destinos, impeliam-lhes o desejo de as fazerem e cada um era o ponto de partida rumo a eles próprios.

Torciam-se e aconchegavam-se nas palavras; erguiam-se nelas, de troncos fundidos.
Não eram apenas blocos de letras que dançavam, antes fracturas expostas de sentidos.
Fogueiras alimentadas a aço até às entranhas: seda: a dança dos seres alinhados.

Sobre o choro bebiam-se-lhes as lágrimas: ao grito, solto, afagavam as gargantas e ao peito coberto de cinzas gélidas, dirigiam o abraço, pelas praias onde espreitavam o relevo deixado na caminhada que sempre escutavam.

A inevitabilidade da ausência de som não era necessariamente dolorosa, o silêncio marcava cada canto geográfico, ansiava pela sua rendição, vislumbrada a alegria de se terem reconhecido: sabiam que seriam regadas as palavras das temperaturas elevadas, que acolhendo, se atiravam reciprocamente - o efeito era tremendo no que provocava, acrescentado ao que sobre eles diziam, nas ruas onde as árvores largavam folhas no ritual da queda anunciada e sem opção de ocupação de espaço.

Dominavam com enorme precisão o quanto a simplicidade e as pequenas atitudes lhes cobriam cada poro: as que não se descortinam, sendo tão ínfimas, espreitavam a medo.

Partículas que estão ao alcance de uma quase imperceptível movimentação dos lábios, atirada contra uma língua quase estática, que disparava um som que os preenchia de uma forma desintegrante.
Por isso se moviam ocultas: apuravam tudo o que é verdadeiro de forma exímia - porém dilacerante; acrescentavam sorrindo, muitas vezes.

Ecoavam no que eram: atingidos em cheio, porque sentiam o que queriam ver.

Todas as noites eram de vigília: olhava-a entregue ao sono, abdicando do seu: um ser que ninguém via na sua verdadeira dimensão, num apaziguamento consigo própria que não tinha pensado ser possível atingir, porque pensava não poder conjugar ser, como o verbo fulcral das suas fracções de tempo.

Dela tudo queriam roubar, sem o saber fazer.
Pretendiam que se alimentasse de si própria - e conseguia-o de um modo pura e simplesmente espantoso - e nem assim a viam.

É: imensa; maravilhosa; vasta; querida - muito fácil gostar muito de ti – dizia baixinho, com esperança que pudesse ser o suficiente para a acordar.
Relembrava as horas que não a via e como era doloroso por vezes não a saber ou sabê-la como não merecia.
A sua distância; frieza; não esmorecia uma partícula que fosse o que por ela sentia.
O esboço de sorriso que exercia, enquanto lhe beijava a face tornava-lhe presente o que nele, ela despertava, geradores exponenciais de vontades, como um imparável vento norte num areal que atira todos os grãos de areia contra quem via agora dormir.
Tinha-lhe ouvido um dia, gostar de ser soprada por esse mesmo vento, ao longe, para que olhasse um céu laranja em chamas, a conseguir vislumbrar o que a preenchia: que lhe trouxesse o que desejou, do qual tinha até um medo sinuoso, só de pensar nisso, na preversa inocência que encerrava.

Nas mãos tinha o pequeno papel que ela retirava da peça de vestuário que abandonava no chão, no ensaio das noites até à origem dos dias:
“Estar longe de ti – como se este tipo de distâncias pudesse alguma vez ser medido - mas tão perto que veja os teus cabelos a brincar com as costas, sob a minha mão, porque a cabeça deambulou docemente num percurso cristalino entre o ombro esquerdo e o que está na zona oposta, repetido em movimentos repletos de felicidade e o teu olhar atingir um brilho que ofusque em simbiose, o céu que te incendeia.”

Por esses momentos a dor tornava-se inexistente.
A permissão resumia-se apenas ao movimento que levava os olhos a ficarem cerrados, passar todo um filme em que dançava; ria: ancorada.
Avaliava a distância e frieza que por vezes obtinha: a possibilidade de adensar sobre os dias essas componentes que queria longe: uma razão de instinto de sobrevivência, tremenda, irrefutável, fodida, a levar com toda a certeza a isso.

Mesmo esmagando toda a vontade de gritar, saltar ou pôr aqueles braços à sua volta e deixar os seus ao alcance dela.
Ou os seus dedos alcançados por aqueles que agora circundava.
Toques mínimos, suaves, de cores adivinhadas.
Dos lábios recusava falar ou pensar, porque se ficava por um olhar alinhado: com outro - num só.
Num silêncio suavemente atropelado por um dedilhar da guitarra que não se vê e se ouve a estalar quando os dedos a prendem sem a força necessária.

Quando lhe dizia que o amava, ao ver aquelas palavras, dela para ele: fazia-lhe valer a pena existir.
E ser: o que procurava atingir(-se).
Por saber que alguém o sabia assim, embora delirasse por nem sequer o imaginarem como tal.

Não tinha desistido de apreender o mito da felicidade, mas cada vez mais, não passava de um somatório omitido de pequenos momentos tornados perenes: mas não seria esse o seu princípio básico?
Amá-la era afinal um fragmento imenso: um infinito indescritível, que segurava entre os dedos, mergulhava e se perdia no seu interior.
E era tão pouco.

Queria-o cheio, repleto na simplicidade que era; doce na complexidade com que no fundo se movia.
Se a fazia sentir um ser excepcional e muito lindo, sentia-o também como uma redefinição desse conceito e a estabelecer uma nova regra: uma nova ordem da dimensão dos entes que se espelham.
Que se reflectem nos rios, se sentem nos ventos que os ramos tentam em vão alcançar e fazem parte do que cada um respira comutativamente.
Na forma em que se queriam: fossem: mais, ainda - que sonhe; dance; escreva, se preencha ao tocar as sombras pequeninas e raios de luz imensos.

Como uma canção de uma vida, os ínfimos seres que se movem e que a habitam, a que muitos chamam palavras, são atarefados e inextinguíveis artesãos dos sentidos, que o género humano, estupefacto, veja perto ou longe não consegue decifrar.

Ama ver: não ousa absorver.
Consome - não se deixa consumir: apenas em entrega total.
No abraço.
Solto numa voz trovadora. Puxada do fundo de ti, murmurava enquanto lhe guardava a imagem entregue ao sono.

“Escuta o piano como um vértice da guitarra.
Mesmo que passeies sozinho não estás só.
Até se os passos ficarem mudos na iminência de uma cegueira.
Porque isso não está ao alcance de qualquer um: e tu aí estás submerso: choras e cai-te bem a cor do espanto.
Que tal?
Deixa-me atrever a dançar olhando estas palavras, ouvindo-te cantar e tocar.
E ver.
Dar-lhes o caminho que merecem, o afago que procuram em recusa e recusam em procura”.
Relia o canto de papel entre as mãos como se fosse a segunda vez que o fazia.
Porque da primeira pensou não chegar ao fim, impedido pela convulsão.

Escutava o céu em fogo numa elegia dos sentidos: trocava as canções da ordem como pedras de uma praia onde o naufrágio lhe sublinhou os passos.
E quando conseguia abrandar: pensava - ou pelo menos ainda tentava – ao abraçar tudo isto, sou projectado contra o que tanto desejo: vida.

Perseguia o beijo: em exaustão - combustiva.
Onde soavam cordas trespassadas por dedos que tocam a sua ausência, que não apaga o seu rosto, nem extermina o teu sorriso, perante desejo em permanência.
Onde estaria?
- Dás-me licença de engolir em seco, para que nenhuma água resvale do meu corpo?
- Toda!: mas não prendas o que é livre.
Há ciclos em que te quero sem saída.
Tenho teus dedos nos meus, queria naufragar em ti, içar-te, derreter neves e beber os gelos, fragmentá-los, para me espalhar contigo - nudez de corpos adivinhados: sussurro soletrado.

Queimo agora as palavras que ocupavam as folhas que sobreviveram às dobras, nestes dias que não têm nada para dizer e não te devolvem às ruas liquefeitas, onde as faces rasgadas erguem a silhueta do que fui, sem perturbar o teu movimento ascendente - sedição de vontades largadas sob as canções de granito agora tacteadas através do recorte da sua desintegração.
Foge o teu nome resgatado do vento inane, esboço da ausência onde foi fotografada a cor da saudade, tecidos macerados pela chegada acutilante de palavras agitadas por uns lábios antes teus.

2 comentários:

Vanessa disse...

assalto aos arquivos.

Nuno disse...

n
ã
o

e
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ã
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c
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p
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o
u
t
r
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c
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i
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a

;)