02 julho 2012

até as sociedades mais primitivas admitem os seus loucos 2012.07.02


(c) Miguel Marecos

Há um caos que por vezes prevalece, vagueia dentro de si próprio ou está aprisionado em rituais de causas desconhecidas, imune a questões, ignorando contornos voláteis

- sempre que subo lentamente as escadas de ferro para o sótão, escuto ainda as teclas do piano a afastar o pó do abandono.

- consegues regressar lá? Voltas muitas vezes?

- não se contam repetições de sonhos.

- sabes: apenas sonhava com o tempo atravessado por canções que não se limitavam a rodeá-lo nas noites em que partias: prolongava horas no presente: não distinguia o solo que percorria – não via fronteiras entre o que era real e a ilusão de um desenho em que os traços era lidos por dedos lentos.

- o som cercava-te mais? De olhos fechados dançavas entre as horas que libertavam cada minuto que incluíam? Eu não conseguia recordar a tua voz. Tudo se sobrepunha. O desejo de a voltar a escutar era tão grande que se apagava em fracções de tempo tão mínimas. Todas as imagens, cada um dos sons e a quantidade inesgotável de luz diluíam palavra por palavra, o que me dizias com o olhar que não perdi.

- aquele topo da casa era a elevação geográfica onde queria atingir um estado inventado: estava sempre bem lá: quanto te esperava, quando chegavas; ficavas; ias: quando saías, deixava-me por lá a percorrer cada milímetro que tinhas ocupado: queria levar cada um desses recantos, distribui-lo por cada dia que espreitava por ti: ordenar o caos: dar-lhe olhos em brilho num ritual sem contornos: arredondar e implodir a saudade que feria: volatilizar a ausência.

- as conversas voavam, eram espécies sem épocas migratórias: cantar contigo as palavras que ainda davam os primeiros passos após serem geradas: com pouco tempo de vida davam-me as sensações de viagens desde tempos milenares, eu vagueava por ti e queria-me num espaço cativado por gesto que o enchesses.

- agora que caminhamos para lá, o tempo está cada vez mais suspenso. A tua mão retira vento à minha e no entanto ela voa como nunca e o colapso da respiração torna-a ainda mais leve. Há memórias que se realizam, materializam e cristalizam o que pareciam esboços à espera que lhes percorresses a alargasses os traços para que se tornassem invisíveis a partir dai.

- conseguiremos voltar a entrar?

- nunca de lá saímos. Prevalece o que seremos.



1 Sigur Rós - Fjögur píanó
2 The Czars - Song To The Siren
3 Calexico - The Black Light
4 Morphine - You Look Like Rain
5 Chris & Carla ft.Tindersticks -Take Me
6 Lambchop - Kind Of
7 The Go-Betweens - When She Sang About Angels
8 The Triffids - Burry Me Deep In Love
9 Jack the Ripper - Old Stars

4 comentários:

Anónimo disse...

Gostei muito do texto e do blog:)

Lisabel

Nuno disse...

obrigado.

tenho-o tratado mal, de há uns tempos a esta parte. mas vai alterar-se o estado :) stay tuned

Anónimo disse...

i will:)

Lisabel

Nuno disse...

:)