15 setembro 2012

espaço raro, ou a letra que arde no som da geometria indecifrável






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espaço raro, ou a letra que arde no som da geometria indecifrável

- Queria que pudesse ser mais claro para mim o que vejo quando ficas assim.

- Assusta-te?

- Também. E…

- Que mais te provoca, porque te impede a limpidez?

- Ia acrescentar. Organizava a resposta, interrompeste e auxiliou: ficar por perto; sim, sinto ter que o fazer. Como uma certeza que se intui.

- Sabes que sempre soubeste ocupar o espaço à volta do que é imperioso ser o meu? Dás-lhe nitidez. Alias desenho, deslocação e agitas elementos, numa aritmética em que redefines as fronteiras que o preenchem, onde habita uma operação única, uma divisão impossível da respiração pelo silêncio que se deitou com a idade e se apaixonou por um tempo que acordou com a fracção de uma forma de felicidade com gente bonita dentro.
Não asfixias; não sobrepões camadas que levam a inexpugnabilidade dos sentidos, onde não pretendo pensamentos que me fortaleçam os medos.
Fazes-me ter palavras, que se sucedem; erguem e crescem sem nada que as amarre: como estas. Sinto-as comigo apesar de as ouvires: mantém-se na minha posse por as escutares e as levares. Não têm amo nem senhora no percurso que fazem. Não necessitam de migrações, perdas de pátria, de descobrir rua; atravessar pontes; mares, atingir dimensões distintas ou presença de confins, para se verem a viajar.
Perco a noção de tempo quando as observo a ecoar nas ideias que geras de modo tão natural.
Tal como elas, as palavras, os pensamentos ramificam-se e florescem, sustentando-se, abraçam-se aos terrenos férteis arados pelas tuas mãos que questionam, pelo movimento que se desencadeia, por respostas que se desintegram concluindo não o ser: tornam-se consequência quando se julgavam causa, são a rotação do tempo quando eram levadas a crer ser dominadas por ele.

- Translacções do espanto?

- Aqui não receio a falta de respostas, porque não as anseio.
Há imagens, como a que contavas um dia. A do rio que ama. Porque não tem divisões: um leito único, sem braços que o tornam perdido, permitindo a conservação do que contém até o entregar numa mão que me tece o rosto. Onde as lágrimas ficam presas: questionando-se.
Passo e posso ser mais, aí: tudo aumenta com o descontrolo dos expoentes, nasce; desenvolve-se, não num só estádio, não por imposições ou obrigações imprescindíveis, mas apenas por conceitos que se estilhaçam.
Há uma geometria indecifrável onde tudo perde forma, abandona massa e despedaça volume. Em que sou detentora da chave que me beija o peito e não preciso de a usar, porque sou espreitada por ti e te vejo mesmo quando dirijo a cabeça à janela que mostra lugares inexistentes.

- Há sempre um local sem posse que pode ser um domínio nosso, mesmo que o desconheçamos, rejeitemos ou dissimuladamente o desejemos.
Há um ponto incluído no espaço que te chama, acenando, até se vestido de invisibilidade.

- Não acreditas na aridez, na destituição da presença, na prevalência do nada?

- Espreitado por ti, não!

- Sabes que aqui não me pesam os gestos nem a sedição de sentidos. Não me importa nem perturba se avanço sem perguntas e ausência de respostas, se há solo para pisar ou se vale a pena perdê-lo. Se compensa a vertigem, ter medo da queda, se o voo começa ou se te vejo.
Se as dúvidas assaltam as durações e lhe queimam a letra.
Não recordo, não é importante que tudo tenha de significar ou ter significado: esteja rodeado por algo concreto ou forçosamente exista.
O espaço é raro.

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